Histórias de aliens que são humanas demais

abril 02, 2018


Imagine ser enviado para outro planeta com o objetivo de impedir a evolução de uma sociedade inteira. E para isso é preciso se passar por um deles, se infiltrar na realidade deles e matar pessoas. É essa missão de Andrew. Mas Andrew não é Andrew. Ele é um ser-não-humano que está de posse do corpo e da vida de Andrew Martin, um matemático da Universidade de Cambridge que dedicou grande parte da sua vida ao enigma de Riemann - enigma que ele finalmente desvendou. Mas a descoberta de Andrew pode ser perigosa para o universo, porque pode significar a evolução dos seres humanos e do planeta Terra, um salto tecnológico com o qual os humanos não saberiam lidar. 

Andrew está completamente nu quando se depara com seres de uma aparência estranha e desagradável, que se comunicam através de um vocabulário pequeno e sem muitos mistérios - como ele logo vem a descobrir. Ele não entente porque as pessoas lhe olham esquisito, com um ar de julgamento, como se ele fosse um louco. Só depois ele descobre que toda a estranheza se deve ao fato de ele não vestir aquilo que os humanos chamam de roupa. 

"Os humanos, como regra geral, não gostam de pessoas loucas, a menos que sejam boas em pintura e, ainda assim, depois que já morreram. Mas a definição de louco na Terra parece ser muito obscura e inconsistente. O que era absolutamente são em um período torna-se insano em outro."

Vestido e de posse de suas memórias imprescindíveis no momento - mas não de muita lucidez, como todos ao seu redor insistem em afirmar-, ele caminha até em casa. A casa de Andrew, que agora é a casa dele. Com a família de Andrew, que, por hora, é a sua família: a esposa Isobel e o filho Gulliver. Sua missão é simples: destruir todas as provas da resolução do enigma de Reimann e todos aqueles que souberem de qualquer informação.


Parece fácil, até ele se dar conta de que os humanos não são como haviam lhe contado. Eles não parecem inferiores - definitivamente são inferiores na tecnologia e talvez na linguagem -, mas demonstram ter peculiaridades bem interessantes. Como os humanos podem ser ruins e inferiores quando eles conhecem (e vivem!) o amor, a música e a poesia?

"E foi por isso que inventaram a arte: livros, músicas, filmes, peças de teatro, quadros, esculturas. Inventaram tudo isso como ponte para voltarem para si mesmos, para quem eles realmente são." 

Chegamos ao ponto em que eu preciso dizer que sou completamente suspeita para falar de Matt Haig. O primeiro livro dele que li foi How To Stop Time, na língua original e numa as edições mais lindas que habitam a minha estante (publicado no Brasil pela Harper Collins no ano passado) e logo se tornou um dos meus livros preferidos. Pouco tempo depois comprei Razões Para Continuar Vivo, uma espécie de autobiografia em que o autor divide com o leitor como foi sobreviver à depressão. Eu me apaixonei pela escrita de Matt Haig, pela inteligência que ele deixa transparecer em seus livros sobre os mais diversos assuntos, pela sinceridade e, acima de tudo, pela humanidade presente em suas histórias. E nesse aspecto Os Humanos não é nem um pouco diferente, é um livro sobre um alien que descobre o humano - não só o substantivo mas também o adjetivo -, seus lados feios e bonitos. E é incrível.


É a história de um ser que opta por ficar preso ao corpo de outro, que opta pela humanidade em vez da imortalidade. Um ser que, aos poucos, se torna humano; se torna marido e pai.É a história de alguém que se apaixona; que descobre o amor e o vivencia: o amor romântico, o amor de um pai por um filho, o amor fraterno. E Matt Haig nos conta essa história com muito bom humor, piadas e alfinetadas leves sobre os seres humanos e a nossa sociedade, nos envolvendo na magia de uma boa música e uma boa poesia. O autor gosta de refletir sobre a vida em seus livros, sempre preocupado em discutir saúde mental da maneira que pode. Não foi a toa que se tornou um dos meus escritores preferidos. 

O livro é narrado como se fosse uma carta enviada ao seu planeta natal, a fim de contar sua vivência na Terra, numa espécie de diário de bordo, ao mesmo tempo que tenta desmistificar a visão conturbada que sua sociedade têm dos seres humanos. Mas é uma carta que atinge os próprios seres humanos - que somos nós, os leitores -, aos nos deparamos com nossos costumes, angústias e defeitos estampados nas páginas. É um lembrete quanto às coisas boa da vida na Terra: a família, o amor, a poesia e a música. 

"E foi então que tomei consciência do porquê do amor. O amor servia para ajudar a sobreviver."

You Might Also Like

1 comentários

  1. Oi, Ceci, tudo bem? Fiquei feliz que você voltou <3 Espero que apareça aqui mais vezes (eu sei quanto a nossa saúde mental reflete em muita coisa, mas tô aqui te desejando muito amorzinho e motivação!).
    Então, eu não conhecia o autor e gostei muito da abordagem dele. Com certeza, vou procurá-lo <3 Eu não sou muito de sci-fi, mas quero muito me embrenhar mais nesse gênero. Brigada pela dica <3

    Love, Nina.
    www.ninaeuma.blogspot.com

    ResponderExcluir