#SetembroAmarelo: Quando tudo faz sentido

setembro 01, 2017


Liz Emerson aparentemente tem tudo que uma adolescente pode querer: uma casa só para ela; uma mãe que viaja demais, a quem ela não precisa ficar dando satisfações; a popularidade total no colégio; amigas fiéis que estão sempre a sua disposição; e um namorado bonitão e popular que aparece apenas quando é conveniente para os dois. 

Mas a verdade é que Liz se utiliza de tudo isso, da popularidade, das festas, do álcool e das drogas, do namoro por conveniência e do bullying que pratica, para se esconder da solidão que a cerca. 


Liz perdeu o pai, a quem era realmente muito apegada, e de certa forma ela se culpa pela morte dele. Depois que ele se foi, a relação com sua mãe também ficou esquisita, distante. Suas amizades não começaram da forma mais correta, seu namoro muito menos. Suas relações não são saudáveis, de forma alguma, com absolutamente ninguém. 


O silêncio da sua casa e os gritos da sua consciência fazem Liz repensar toda sua vida, desde a menina doce que foi em sua infância até a moça rude e egoísta que se tornou. Aonde foi que ela se perdeu? Liz então se vê insatisfeita consigo mesma, com quem se tornou, e não vê mais como voltar atrás e ser quem ela já foi um dia, porque ela já deixou estragos demais no meio do caminho, e não se pode colar os pedaços de um espelho quebrado e esperar que ele volte a ser como antes. 

“Liz não destruía só as pessoas de quem não gostava. Não eram apenas os nerds, os gays, as piranhas, os geeks da banda, as líderes de torcida ridículas, os membros da equipe de xadrez, os membros do Clube Budista, os quietinhos ou os barulhentos. Ela destruía todo mundo. Até as pessoas mais próximas a ela. Sobretudo as pessoas mais próximas a ela.”
Nas aulas de física Liz ouviu sobre as três leis de Newton, sobre inércia e aceleração e, principalmente, sobre ações e reações. Ela não entende física, mas entendeu o que Newton quis dizer ao falar que toda ação tem uma reação. As ações dela, ao longo de toda a sua vida tiveram reações. Péssimas, à propósito. E agora não há mais solução. Ela precisa tomar uma outra ação e a reação a ela, com sorte, será definitiva. 

Liz Emerson decide pôr fim a sua vida. É hora de partir. 




Tudo tem que parecer um acidente, e Liz decide usar as leis da física ao seu favor. Neve, a colina perto da autoestrada 34, perder o controle do carro. Ela estudou o caminho por dias. Tudo precisava parecer perfeito. Não podia parecer suicídio, porque Liz vivia de aparências, e aparentemente a vida de Liz Emmerson era boa demais para querer dar fim a ela. Mas o que (quase) ninguém sabia era que Liz procurava, com todas as suas forças, um motivo, mesmo que pequeno, para viver. Ela só precisava que alguém encontrasse seu pedido de ajuda, perdido e silenciado em algum lugar dentro dela. 

O livro é narrado em terceira pessoa, e seu conteúdo destoa completamente da sua capa bonita, em um tom claro e agradável de azul. A trama não é bonita, não é agradável. É angustiante. O narrador sabe tudo que se passa pela cabeça de Liz, antes, durante e depois do "acidente". Ele sabe sobre a rotina e os desafios de cada pessoa minimamente envolvida com Liz. E isso só torna tudo ainda mais angustiante, porque o narrador sabe, o leitor sabe, mas os personagens não. É como se estivéssemos gritando por ajuda junto com Liz, mas ninguém pode nos ouvir. 


E é mais ou menos isso que se passa na cabeça de quem pensa em suicídio. Um grito histérico de ajuda que não consegue ser ouvido. É desesperador. 

De tantos aspectos importantes que há por trás desse livro, uma coisa me chamou bastante atenção. Ao contrário da grande maioria de tramas que envolvem o suicídio, a protagonista de Quando Tudo Faz Sentido não sofre bullying, ela o pratica. O que nos leva a refletir sobre o perfil que o bully geralmente apresenta, o perfil de uma pessoa que também precisa de ajuda, que também enfrenta problemas., trazendo o ato de praticar bullying como uma forma de mascarar ou fugir da sua própria dor, mesmo que causando dor ao outro. 


Liz odeia quem ela se tornou. Ela tem consciência de suas ações, das humilhações e dores que causou às outras pessoas, incluindo à suas próprias amigas e a si mesma. E Liz sofre com isso. Liz sofre com a dor da perda do pai, da solidão, do silêncio da sua casa e do barulho da sua mente, da falta de amor e da dor de ter causado dor aos outros. E por isso ela acredita que precisa punir o vilão que é ninguém mais ninguém menos do que ela mesma. 


Se Liz sobrevive ou não ao "acidente", se o seu plano foi bem sucedido, e se as leis da física realmente se provaram verdadeiras fora do papel, só sabemos no final do livro. Depois de toda a angústia e toda a comoção e todas as reflexões causadas.  Mas uma certeza que fica é de que precisamos falar sobre o suicídio, sobre o bullying - e todos os lados nele envolvidos, não só da vítima -. 






Esse post faz parte da campanha #SetembroAmarelo , que visa conscientizar e combater o suicídio. 

You Might Also Like

2 comentários

  1. Oi, Ceci. Eu tô aqui, porque terminei de ler sua newsletter o/
    Eu também tô planejando alguns posts sobre o Setembro Amarelo. Não conhecia este livro e gostei dele. Atualmente, tô lendo um que fala também de suicídio, em umas das histórias (porque são três personagens). Como eu ainda faço parte de pessoas que pensam na morte, essa personagem me tem sensibilizado muito, às vezes tenho que parar a leitura porque fico acabada, sabe?
    O que me chamou atenção neste livro foi, também, o fato de a protagonista praticar o bullying. Achei interessante essa perspectiva, muito pouco aproveitada nas narrativas.

    Obrigada por todo o seu esforço em continuar sonhando <3

    Love, Nina.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ei, que bom saber que você já ta acompanhando a newsletter, espero que goste. Você foi uma das minhas inspirações, não só para ela mas pra esses posts sobre o setembro amarelo também, que eu lembro bem de ter visto você fazer isso no seu blog ano passado. To feliz que vai repetir a dose :)
      Eu conheci esse livro recentemente também e não imaginei que a história fosse tão intensa. Mas foi uma boa leitura, exatamente por esse diferencial em relação ao bullying. Qual o livro que você ta lendo?
      Entendo bem o fato de você se sentir atingida pela história e pela ligação com a personagem. Quero dizer mais uma vez que eu to aqui, mesmo que distante, pra lhe ouvir sempre que você precisar. Sobre qualquer coisa. Nos seus dias bons e ruins.
      Beijo grande

      Excluir