Autismo na tv: Atypical

agosto 12, 2017

Se você chegou agora por aqui precisa saber duas coisas sobre mim: eu faço faculdade de Psicologia e sou fascinada pelo universo do autismo, é uma área com a qual pretendo trabalhar depois de formada.  

Assim que eu soube que a Netflix iria fazer uma série sobre um adolescente autista eu já fui logo cadastrando Atypical na minha lista antes mesmo dela ser lançada, e mal acordei no dia 11 já fui dando o play na série. Resultado: terminei a maratona antes mesmo das oito da noite. Em minha defesa a série é curtinha, apenas oito episódios com pouco mais de meia hora cada. Em minha defesa, mais uma vez, a série é muito boa. 


E eu sei que pareço suspeita para falar, porque se você prestou bem atenção ao primeiro parágrafo desse texto percebeu que eu amo a temática do autismo. Mas a verdade é que a série me conquistou exatamente por ir além disso, e por saber explorar, mesmo em tão poucos episódios, muito do que envolve o transtorno do espectro autista, TEA, envolvendo não só o personagem autista mas também todos ao seu redor. 

Sam tem 18 anos - e a isso já associamos um ponto positivo, porque é meio raro encontrar filmes que abordem o autismo em uma fase que não seja a da infância -, e ok, ele está no espectro de alta funcionalidade, conhecido também como asperger, nível em que as habilidades sociais e cognitivas não estão tão afetadas, que também é o que a maioria dos filmes com essa temática apresenta, contribuindo para a falsa ideia de que todo autista é, necessariamente, um gênio. Mas nem por isso vemos Sam livre das dificuldades e medos vivenciadas por quem está no espectro, independente do nível e isso sim é bem real. 

A família de Sam, principalmente sua mãe e irmã mais nova, souberam lidar muito bem com a situação durante toda a infância e adolescência de Sam, mas agora ele quer namorar, como todos os garotos da sua idade. E ele sabe que tem algumas barreiras que precisam ser vencidas para isso, mas ele está mais do que disposta a fazê-lo. Sua mãe, no entanto, não lida bem com a notícia, porque ainda vê o filho como uma criança que precisa de cuidados especiais, como alguém frágil e que não sabe lidar com as frustrações. O pai de Sam tem certa dificuldade em se aproximar do filho, mas encontra nessa fase da vida de Sam uma oportunidade para se fazer mais presente na rotina dele, tirando suas dúvidas quanto as garotas e o ajudando em todo o processo de encontrar uma boa "namorada de teste". 

Quem também começa a namorar é Casey, a irmã, ao mesmo tempo em que surge uma oportunidade incrível para investir no seu futuro como maratonista. Dividida entre namoro, amizades e a família - principalmente a responsabilidade que carrega em relação ao irmão -, Casey sente-se angustiada diante do fato de ter que tomar uma decisão tão importante. 


E em meio a questões normais da adolescência, escola e descobertas, também vemos um casamento em crise, desgastado pelos anos que giraram ao redor do diagnóstico de Sam, do grupo de apoio aos pais de autistas, dos rótulos e expressões corretas e incorretas dentro desse diagnóstico. 

No desenrolar de oito episódios o que se percebe é que se trata de uma família comum, com problemas cotidianos, pais ciumentos, mães super-protetoras, filhos adolescentes. A rotina que poderia ser tanto de uma família com um filho autista como uma com um filho neurotípico. Ao mesmo tempo em que é interessante ver como um diagnóstico de autismo é capaz de mobilizar todos os membros de uma família de maneiras diferentes. Em uma mesma trama temos o autismo sob a visão do autista, dos pais, da irmã, da namorada, dos amigos, da psicóloga, da comunidade.

A psicóloga nessa série - ao contrário da gigantesca maioria de outras séries, filmes e livros que contêm esse personagem -, é apresentada de uma forma bem positiva, com algumas ressalvas quanto a sua postura profissional em determinado momento, mas que, por outro lado, não deixa de ser um ser humano como outro qualquer. Vemos a Julia psicóloga e a Julia pessoa, mesmo que às vezes as duas se misturem, ainda é possível diferenciar uma da outra em alguns momentos. E isso tudo é bem importante. 

Atypical sabe dosar drama familiar, drama adolescente, as dificuldades do universo do autismo e a comédia. É uma série que discute questões importantes sem precisar ser chata ou cansativa ou apelativa. Já deixo aqui registrada a minha torcida para que seja renovada, que possamos ver muito mais do desenvolvimento de Sam e sua família e que, acima de tudo, possamos quebrar esteriótipos sobre o autismo, conscientizando cada vez mais pessoas. 


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2 comentários

  1. Oi, Ceci! Eu já assisti também, mas tô enrolando para escrever a resenha, porque tô muito dificuldade em colocar as postagens do blog em dia :/ Eu não sabia que o asperger é o nicho de autistas com alta funcionalidade, achei que o asperger fosse uma sub-categoria, mas que existissem vários tipos de asperger. Nossa, que burra eu hahaha. Já te indiquei a HQ "A diferença invisível", né? Porque também fala do asperger, é muito lindinha! <333
    Adorei a sua resenha! :)

    Love, Nina.

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    1. Oi, lindona!
      E aí, o que você achou da série?
      Então, não faz muito tempo o Asperger deixou de ser uma subcategoria do autismo. Na última edição do DSM foi adotada a denomição de Transtorno do Déficit Autista (TEA), caraterizando-o de fato como um transtorno que pode acontecer em diferentes níveis, e dai veio o espectro, onde os diferentes tipos e níveis de autismo vão se enquadrando. O termo autismo remetia muito a doença, então acredito que essa mudança faz parte dessa ideia de quebrar certos preconceitos e senso comum. Mas deixando toda essa coisa de denominação de lado, no fim das contas o Asperger é sim um tipo de autismo hahahaha
      E você ja me indicou essa HQ sim, eu que acabei esquecendo. Mas obrigada por me lembrar mais uma vez!
      Um beijo

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