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Tartarugas Até Lá Embaixo e o inimigo que mora dentro da gente

novembro 14, 2017


Preciso confessar que não sou grande fã dos livros do Jonh Green. Não que eu os ache ruins, só nunca compartilhei do amor e idolatria por suas obras como foi, por exemplo, com A Culpa É das Estrelas. Então foi uma surpresa para mim mesma quando me vi comprando o seu novo livro. Sem dúvida alguma foi a temática de saúde mental que me fez confirmar a compra de Tartarugas Até Lá Embaixo. 

Aza Holmes sofre do Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mais conhecido como TOC. E seus pensamentos ansiosos e intrusivos são seus maiores inimigos. 


A leitura do livro é angustiante a maior parte do tempo, não porque é um livro ruim, pelo contrário, mas porque o sofrimento de Aza é tão palpável, tão real, que conseguimos sentir quase que o mesmo que ela. Quase, porque cada pessoa sente de um jeito, e a dor do outro nunca será igual, maior ou menor do que a nossa. É como se fôssemos transportados para dentro da cabeça que nunca pára de Aza. E é angustiante. Porque o TOC pode destruir a vida de uma pessoa. Porque é angustiante - e difícil - lutar contra nossos próprios pensamentos, e dá certa sensação de impotência. Porque talvez "a vida seja uma história que contam sobre nós, não uma história que escolhemos contar. E a gente só finge ser o autor."


Não sei se é porque o autor também tem TOC e conhece bem a dinâmica do transtorno, ou se porque John Green realmente amadureceu sua escrita, ou provavelmente as duas coisas, mas Tartarugas Até Lá Embaixo me pareceu completamente sincero e real, e prendeu minha atenção do início ao fim. Apesar de que eu não sei se gostei do contexto de investigação que há por trás da trama e que, de certa forma, justifica o sobrenome da protagonista. Talvez tenha ficado deslocado demais quando pensamos no propósito do livro que é discutir o TOC e a saúde mental como um todo. 

As personagens são bem desenvolvidas a ponto de cada uma delas ter uma importância fundamental na vida de Aza. É interessante observar o cuidado e preocupação da mãe, que sempre parece pisar em ovos quando se trata da doença da filha; a dimensão que Daves assumiu na vida de Aza, não só como um possível apelo romântico, mas como um amigo e confidente, alguém que se aproxima do que ela sente e vive; e a amizade com Daisy que evolui ao longo dos capítulos, com cenas e discussões que mostram os lados tanto de quem vive com um transtorno mental como o de quem convive com alguém assim, mexendo com os sentimentos não só das personagens mas também do leitor. 


Um transtorno mental é quase sempre um inimigo que mora dentro da gente, e é difícil externar isso para as pessoas. Porque a nossa dor nunca será a dor do outro, e parece que ainda não inventaram as palavras certas para explicar o que acontece dentro da gente. 


"O problema de finais felizes é que ou não são realmente felizes, ou não são realmente finais, sabe? Na vida real, algumas coisas melhoram e outras pioram. E aí a gente morre."
Mas sempre há formas de lutar contra esse inimigo, e mesmo que não se possa vencê-lo, ainda há como aprender a conviver com ele de forma amigável; com dias bons e outros ruins, como tudo e todos na vida. É como John Green nos diz nos agradecimentos: "pode ser um caminho longo e difícil, mas os transtornos mentais são tratáveis. Há esperança, mesmo que seu cérebro diga que não."

Esse post faz parte do Projeto Essential Books. O tema do mês de Junho foi a essência do  (a) inimigo (a)

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A sensibilidade e a sinceridade de Estamos Bem

outubro 13, 2017


A primeira coisa que pensei quando fechei Estamos Bem, logo após finalizar a leitura em um único dia, foi: como que um livro tão pequeno pode dizer tanto? 

Depois de passar quase um mês na leitura de How To Stop Time (que é um livro incrível e um dos melhores que li no ano, tentarei resenhar também) eu estava precisando de uma leitura rápida, que pudesse me fazer companhia em um final de semana ou, nesse caso, em um feriado. Quando meu pacote da Amazon chegou na quarta-feira eu soube que Estamos Bem era a pedida certa. 

Em pouco mais de duzentas páginas, Nina LaCour nos conecta à Marin, uma jovem recém chegada em Nova Iorque, procurando no alojamento da faculdade um esconderijo, um local seguro para onde pudesse fugir de tudo que deixou para trás: a paixão pela leitura, a casa de seu avô, o sol da Califórnia, o corpo de Mabel e o último verão que viveu na sua antiga vida que ela agora prefere esquecer. 


Com uma sensibilidade e beleza já estampadas na capaEstamos Bem é tão bem escrito e sincero que, em poucas páginas, consegue ser mais intenso do que outras obras extensas que existem prateleiras afora. É um livro sobre a dor. A dor do luto, a dor do autoconhecimento, a dor da solidão
"O desconhecido é um lugar escuro. É difícil se render a ele. Mas acho que é onde moro a maior parte do tempo. Acho que é onde todos nós vivemos, então talvez não precise ser tão solitário. Talvez eu consiga me acomodar, me aconchegar, construir um lar na incerteza."
O livro inteiro parece um desabafo bem pessoal de Marin, é uma espécie de diário, e é isso que torna tudo tão mais intenso, que nos aproxima da personagem, que faz com que nos importemos e nos preocupemos com ela. Que permite que conheçamos Marin aos poucos, na velocidade que ela permite, de acordo com o seu desejo e a sua disponibilidade de se abrir no seu próprio tempo. 


Entre indas e vindas, entre capítulos que narram o presente e o passado de Marin, há o amor. O amor de uma família, de estranhos, de uma melhor amiga e um amor romântico. Estamos Bem, com muita sensibilidade e sinceridade, ganha espaço entre os romances LGBT da literatura atual. 
"Estamos em uma faculdade de Nova York, não numa escola católica. Muitas garotas aqui usam pulseirinhas de arco-íris ou broches de triângulos rosa e falam com casualidade sobre ex-namoradas ou dizem que a coordenadora do programa de estudos femininos é gata. Nunca participei disso, mas só porque não falo sobre as coisas que deixei para trás. Mas acho que reparei, apesar de ter tentado me fechar. Apesar de tudo, notei algumas garotas."
Nina LeCour mostra com maestria que não precisa de floreios para tocar as pessoas. Sua escrita é muito pontual e sincera e cumpre com sua proposta de sensibilizar sobre assuntos angustiantes e importantes, tudo ao mesmo tempo.


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livros

#SetembroAmarelo: Invisível

setembro 11, 2017


"Eu começo a esquecer. É assim que percebo que tem algo errado."
É assim que começa o conto Invisível, da minha querida amiga Nina Spim. Um conto curtinho - mas intenso de uma forma que te atinge em cheio -, sobre depressão, sobre o vazio, mas também sobre se reerguer. 

Eu já tive o prazer de ler alguns dos escritos da Nina. Os textos carregados de sentimento que ela posta no blog, pequenos contos, e até seu livro, que eu acompanhei desde as primeiras palavras. Nina tem uma escrita única e não importa o que ela escreva, ou sobre o que escreva, uma coisa é certa: sempre vai estar carregado de sentimento. Um sentimento de dor, ou de angústia, ou de esperança. Quase sempre tudo junto. E é isso que a Nina tem de mais especial, ela põe verdade em suas obras. 

E uma das coisas que eu mais amo na autora, além de todo seu sentimento e verdade, é sua preocupação com a responsabilidade e a representatividade, é saber que a arte -e a escrita é essa arte -é um reflexo da realidade, "é saber que a sua mensagem será lida e que você tem responsabilidade sobre ela, que a sua literatura repercutirá um efeito na história real do leitor."



Invisível é uma história real de milhares de pessoas que sofrem com a depressão, que pensam em suicídio, que se sentem vazios e invisíveis todos os dias, seja nos dias mais difíceis ou nos "dias bons". E através do conto, narrado em primeira pessoa, é possível ter uma ideia bem viva do que se passa na cabeça e na vida de alguém que sofre de depressão. O sentimento é palpável. 
"(...) as pessoas são assim: elas podem não entender nada sobre você, mas precisam falar o que é melhor para uma vida que não é delas."
Em seu conto, Nina discute sobre o amor e a dor e sobre o que nos faz querer continuar vivos. Nos fala de sentimentos: expostos, bagunçados ou simplesmente ausentes; sobre sentir nada e a vontade gigantesca de querer sentir, mesmo que seja dor. 
"Vejo as lágrimas e o sofrimento. Queria que isso também estivesse estampado no meu rosto, mas é difícil fabricar até mesmo a tristeza." 
 E então a ajuda. O pedido que vem de fora, de quem ama e se importa, mas não de quem sobrevive aos dias ruins, um a um. Porque é isso, apenas sobrevivência e não o "viver". Porque ela não sente nada. Porque, dentro dela, ela estava lutando. Não era visível - não quando não havia respostas e o sono era a solução mais urgente -, mas suas peças estavam trabalhando, mesmo que num ritmo pífio.

Terapia. Um ambiente calmo, florido, ensolarado. Tentativas e mais tentativas. Batalhas diárias sendo vencidas. Força. Autoconhecimento. Vontade de continuar tentando. E então descobrimos que está tudo bem ter dias ruins, desde que não paremos de tentar. 
"Os dias horríveis vão existir e se repetir e está tudo bem. Está tudo bem sentir o peito comprimido, o ar dissolvido na traqueia, o pavor infinito na mente. Está tudo bem ter que correr, fechar os olhos e contar até cem. Vai continuar acontecendo, porque não vou me livrar das piores lembranças. Sou eu, eu que acho que estou esquecendo tudo, mas todas as coisas ainda permanecem. Eu escolhi quais ficariam e quais rolariam até a profundeza. Todos os dias eu vou ter que escolher."
Invisível está disponível na Amazon, assim como os outros contos da Nina. Vale muito a pena a leitura, até para trabalharmos a empatia, o olhar e a escuta do outro.

Esse post faz parte da campanha #SetembroAmarelo , que visa conscientizar e combater o suicídio. 

musical

#SetembroAmarelo: Dear Evan Hansen

setembro 06, 2017


Escrito por Benj Paek e Justin Paul, os mesmos de La La Land, o musical da Broadway e vencedor de seis Tony (maior prêmio na categorial de musicais), incluindo o de Melhor Musical no ano passado, Dear Evan Hansen canta a história de um aluno do ensino médio que sofre do transtorno de ansiedade social e sente-se perdido e deslocado, invisível diante de seus colegas da escola e não consegue se aproximar da menina por quem ele é secretamente apaixonado. 

O musical começa com Evan no quarto ouvindo de sua mãe as mesmas recomendações de seu psiquiatra: ele precisa sair, falar com as pessoas, fazer amigos, escrever cartas motivacionais para si mesmo. Evan está com o braço engessado, que ele afirma ter quebrado ao cair de uma árvore. Ainda na música de abertura, Anybody Have a Map, a mãe de Connor e Zoe (por quem Evan é apaixonado) também aparece em um diálogo com a sua família, ambas as mães tentando encontrar a melhor forma de criar e ajudar seus filhos. 

Na música Waving Through a Window Evan canta I try to speak, but nobody can hear, e depois, ao escrever uma carta para si mesmo, como o médico sugeriu, diz: 
"Eu queria ser parte de algo, ou que minhas palavras fossem importantes para alguém... Quer dizer, ninguém notaria se eu desaparecesse amanhã."
Acontece que essa carta vai parar nas mãos de Connor, irmão de Zoe, e quando o rapaz se suicida, seus pais se aproximam de Evan, achando que ele e o filho eram amigos, à procura de algum motivo ou sinal para tal ato.  Evan se vê encurralado, sem saber o que fazer, e acaba mentindo para a família do rapaz, alegando ser sim amigo de Connor, com quem trocou vários emails. 

O que vem a seguir é uma espécie de efeito dominó. De repente toda a escola, e não só Evan, passam a falar sobre Connor, sobre os possíveis motivos que o levaram ao suicídio. É uma espécie de comoção geral, mas que nem sempre vem acompanhada de real empatia. No entanto não é difícil observar que esse é um processo natural, se questionar sobre a fragilidade e a efemeridade da vida principalmente quando se presencia a morte de perto, nesse caso o suicídio de um colega de escola, no auge da sua adolescência. 

O musical vem sendo bastante problematizado devido as atitudes de Evan. Alegam que ele se aproveita da dor e fragilidade de uma família em benefício próprio, para se aproximar de Zoe. Mas ao longo da história é possível entender os motivos que levaram Evan a isso. Em determinado ponto da trama fica claro que Evan não quebrou o braço em um acidente, ele também tentou suicídio. Ele sente-se sozinho e invisível, nunca teve amigos e a ideia de ter um, mesmo que sendo uma mentira, é tentadora. Evan quer fazer a diferença na vida de alguém e ele pensa que se fizer a família de Connor, principalmente Zoe que tinha uma visão tão ruim do próprio irmão, enxergá-lo com outros olhos, mesmo após sua morte, é fazer essa diferença. Fazer com que percebam que Connor poderia sim ter sido alguém amado e capaz de amar de volta, alguém com amigos com quem pudesse contar, que tentou livrar-se das drogas. Evan passa então a criar uma imagem completamente diferente de Connor para sua família. E no processo, acaba colocando muito de si nesse personagem que cria. Ao mesmo tempo em que ele sente-se acolhido pela família de Connor, já que sua mãe trabalha muito e acaba se tornando ausente. 

Mas o mais importante nesse musical é a rede de ajuda que se cria. Após o suicídio de Connor, Evan cria o Projeto Connor: um grupo de estudantes dedicado a manter a memória de Connor viva, para mostrar que todos deveriam ser importantes. Outros jovens começam a contar suas histórias e essas pessoas que um dia se sentiram pequenas e invisíveis começam a ser vistas e ouvidas.

A mensagem que fica pode ser resumida em duas músicas, Disappear e You Will Be Found (e sim, chorei de novo ouvindo essa música para escrever esse post). Você importa. Independente de quem você seja, do que tenha feito ou deixado de fazer, você importa. E, quando você não se sentir forte o suficiente para ficar de pé sozinho, peça ajuda. Levante o braço, erga a cabeça, e você será encontrado.  Você não está sozinho. 
" Ninguém merece ser esquecido. Ninguém merece desaparecer. Ninguém deveria ir e vir e ninguém saber que ele sequer esteve aqui."

Esse post faz parte da campanha #SetembroAmarelo , que visa conscientizar e combater o suicídio.